Conversas extraídas do celular do banqueiro citam terreno em João Pessoa, viagem em avião particular e projeto de lei do mercado de carbono. O presidente da Câmara nega qualquer irregularidade.
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), está no centro de mais um capítulo do escândalo do Banco Master. Mensagens encontradas no celular do banqueiro Daniel Vorcaro mostram os dois discutindo uma “sociedade” ligada à compra de um terreno em João Pessoa. A negociação foi fechada no mesmo mês em que a cunhada do deputado obteve um empréstimo milionário do próprio banco. O celular de Vorcaro foi apreendido em novembro de 2025, e o material está sob análise da Polícia Federal. As conversas foram reveladas pelo portal Fato Online e repercutidas pelo jornal O Globo.
O terreno e a cunhada
Em 9 de março de 2024, um sábado, Motta escreveu ao banqueiro para tratar da compra de uma área em “JP”, abreviação usada para a capital paraibana. Segundo as mensagens, ele informou que os documentos passando uma empresa para o nome da cunhada já estavam assinados. Também pediu orientação sobre o “formato de sociedade” que teria sido combinado entre os dois, porque o prazo para quitar a transação com a cimenteira Intercement era curto.
Vorcaro respondeu que faria uma “operação rápida” e que a questão da sociedade seria organizada em paralelo. Quando Motta perguntou sobre os trâmites em São Paulo, o banqueiro disse que os dois resolveriam o assunto depois, entre eles.
No mesmo mês, a cunhada do deputado, Bianca Medeiros, contraiu um empréstimo de R$ 22 milhões com o Master para comprar um terreno em João Pessoa, como a Folha de S.Paulo já havia revelado em março. Segundo a GloboNews, foi o próprio Motta quem pediu a Vorcaro o empréstimo para a cunhada. Seis dias depois do primeiro contato, Motta agradeceu ao banqueiro pela confiança e pela parceria e disse que tudo tinha dado certo dentro do prazo. Vorcaro respondeu que aquele era o começo de uma parceria para a vida.
Avião e hotel em Lisboa
A proximidade não se limitava a negócios imobiliários. Em abril de 2024, Motta perguntou a Vorcaro, a quem chamava de “irmão”, de onde sairia o avião que o levaria a Brasília. O banqueiro respondeu que a aeronave já o esperava em Guarulhos. A investigação já havia mostrado que Vorcaro pagou diárias de Motta em um hotel de luxo em Lisboa em 2024. Na época, o deputado disse que viajou para um evento corporativo.
Em fevereiro de 2025, perguntado pelo então diretor jurídico do banco se tinha bom trânsito com Motta, Vorcaro respondeu com ironia que era o “number 1” do deputado e o chamou de “amigo irmão”. A conversa foi divulgada pela coluna de Malu Gaspar, no Globo.
A emenda do carbono
A parte mais delicada envolve a atividade legislativa. Em novembro de 2024, Vorcaro pediu um encontro com Motta. O deputado aceitou e encaminhou ao banqueiro o texto aprovado pelo Senado sobre o mercado de créditos de carbono, setor em que Vorcaro tinha investimentos.
A PF investiga se o banqueiro atuou para moldar projetos de seu interesse no Congresso. No caso do carbono, as suspeitas recaem sobre uma emenda que Motta apresentou em dezembro de 2023, antes de assumir a presidência da Casa. O texto obrigava fundos de previdência privada, empresas de capitalização e resseguradoras a aplicar parte de suas reservas em créditos de carbono. Na prática, criava um mercado cativo para empresas do setor, entre elas a Golden Green Participações, que, segundo a PF, tinha ligação com a rede de fundos do Master. O STF declarou esse trecho inconstitucional em junho deste ano.
Na ocasião, Motta afirmou que a emenda resultou de um acordo partidário, que o Legislativo considerou o texto constitucional e que legislar não é crime.
O que diz Motta
Em nota, o presidente da Câmara afirmou que as conversas não mostram nenhum ilícito e que mantém diálogo com diversos setores do empresariado. Disse repudiar a tentativa de associar mensagens tiradas de contexto a qualquer favorecimento e declarou ter uma trajetória limpa em 15 anos de vida pública. A defesa de Vorcaro não se manifestou, mas tem reiterado que está à disposição das autoridades.
A pergunta que fica
Ninguém é culpado por trocar mensagens com um empresário. Mas o terceiro homem na linha sucessória da República deve explicações claras. O contribuinte tem o direito de saber que “sociedade” era essa, em que condições a cunhada do presidente da Câmara recebeu R$ 22 milhões de um banco hoje no centro de uma investigação de fraude, e se viagens e hospedagens pagas pelo banqueiro tiveram alguma relação com a atuação do deputado no Congresso. Tratar o caso como mera conversa entre amigos seria ignorar o que as próprias mensagens registram. Quem cobra transparência do governo precisa aplicar o mesmo critério ao comando do Legislativo.






