Por Julio Cesar Gomes | Coluna Entre Linhas
Ao falar sobre a resistência de homens a exames de próstata, o presidente Lula afirmou, em um comício em Belém: “As mulheres aprendem a tomar toque desde pequenas.” O assunto era saúde. Ainda assim, a frase é inaceitável. Um presidente da República tem a obrigação de falar com cuidado, sobretudo quando menciona meninas e seus corpos.
Meninas não devem crescer habituadas a serem tocadas. Devem crescer sabendo que seu corpo merece respeito e proteção; que podem dizer não, contar a um adulto de confiança quando algo as incomodar e ser ouvidas. Devem aprender a ler, escrever, fazer amigos, correr e brincar. A infância não pode ser descrita como um período de adaptação ao toque de outras pessoas.
Essa distinção pesa ainda mais diante da violência que o Brasil registra. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, houve 84.388 registros de estupro e estupro de vulnerável em 2025. Nos registros de estupro de vulnerável, 85,6% das vítimas eram do sexo feminino. O próprio estudo alerta que a redução dos registros em relação a 2024 não permite concluir que a violência tenha diminuído: muitos casos sequer chegam à polícia. (forumseguranca.org.br) (forumseguranca.org.br)
A violência contra mulheres também aparece em sua forma mais extrema. Em 2025, 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio, conforme levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado pelo Senado Federal. São vidas, famílias e futuros interrompidos. (www12.senado.leg.br)
Haverá quem diga que Lula apenas se expressou mal. Eu não aceito que essa explicação encerre o debate. A intenção por trás da frase só ele conhece; o que todos nós podemos avaliar é o que foi dito. E o que foi dito merece crítica, sem cortes que escondam o contexto e sem desculpas automáticas que apaguem a gravidade das palavras.
A defesa de exames médicos e da saúde preventiva é necessária. Justamente por isso, não havia motivo para recorrer à ideia de que mulheres aprendem “desde pequenas” a receber toques. Crianças precisam de cuidados de saúde apropriados à idade, conduzidos com respeito. Precisam, acima de tudo, de adultos que lhes ensinem a reconhecer limites e que levem a sério qualquer relato de abuso.
Pais e mães, conversem com seus filhos. Ensinem que ninguém tem direito ao corpo deles. Prestem atenção, acolham e protejam. E, ao votar, pensem no futuro que desejam para as crianças brasileiras. Eu quero um país em que uma menina possa se ocupar do que pertence à infância: ser criança.




