Mensagens obtidas pela Polícia Federal revelam articulações nos bastidores do governo e presente de luxo avaliado em R$ 500 mil ao presidente. Lula nega favorecimento à instituição financeira.
O banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, teria confidenciado a interlocutores, após sua prisão, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prometeu ajudar a instituição financeira durante um encontro reservado no Palácio do Planalto, realizado em 4 de dezembro de 2024.
A revelação foi publicada nesta quinta-feira (22) pela revista Veja, em reportagem baseada em mensagens extraídas do celular de Vorcaro pela Polícia Federal e em informações sobre as articulações políticas do empresário em Brasília.
O encontro, que não constou da agenda oficial da Presidência da República, ocorreu quando o Banco Master enfrentava dificuldades financeiras e investigações sobre suas operações.
Reunião fora da agenda e articulação nos bastidores
Segundo a publicação, a aproximação entre Vorcaro e o presidente foi intermediada por integrantes do círculo político do governo, entre eles o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, contratado como consultor do Banco Master por aproximadamente R$ 1 milhão mensais.
Outro personagem envolvido na articulação foi Marco Aurélio Santana, conhecido como Marcola, então chefe de gabinete da Presidência.
Mensagens atribuídas ao advogado Walfrido Warde, responsável pela interlocução do banqueiro com autoridades federais, revelam orientações detalhadas sobre como Vorcaro deveria conduzir a conversa com Lula.
Em uma das comunicações, o advogado recomendou que o empresário fosse direto ao expor suas dificuldades e apresentasse claramente o que pretendia obter do governo.
Após a reunião, as conversas entre o banqueiro e seu advogado demonstraram entusiasmo com o resultado do encontro.
De acordo com a Veja, Vorcaro passou a acreditar que havia conquistado apoio político para enfrentar a crise de sua instituição financeira.
Vorcaro relatou promessa de ajuda; Lula apresenta outra versão
A versão que Vorcaro teria compartilhado depois de sua prisão, ocorrida em novembro de 2025, aponta que Lula teria assumido um compromisso de auxiliar o Banco Master.
O relato, entretanto, contrasta com as declarações públicas do presidente.
Em entrevista concedida ao UOL, em fevereiro de 2026, Lula confirmou que recebeu o banqueiro no Planalto, mas negou ter oferecido qualquer tratamento privilegiado à instituição.
Segundo o presidente, Vorcaro afirmou estar sendo vítima de perseguição e recebeu como resposta a garantia de que as questões envolvendo o banco seriam analisadas tecnicamente pelo Banco Central.
“Não haverá posição política pró ou contra o Banco Master”, declarou Lula na ocasião.
Até o momento, o relato atribuído ao banqueiro não constitui, por si só, comprovação de que tenha existido uma promessa efetiva de favorecimento ou interferência nas decisões do Banco Central.
Uísque de R$ 500 mil amplia questionamentos sobre relação entre banqueiro e presidente
Outro episódio revelado pela revista envolve um presente de alto valor destinado ao presidente da República.
De acordo com mensagens encontradas no aparelho de Vorcaro, o empresário determinou a compra de uma rara garrafa de uísque Macallan 1945, avaliada em aproximadamente R$ 500 mil, para presentear Lula.
O ano da bebida coincide com o nascimento do presidente.
As conversas mostram que a garrafa foi localizada no exterior e teve sua entrega organizada por pessoas próximas ao banqueiro.
Posteriormente, o advogado Walfrido Warde informou a Vorcaro que Lula havia agradecido pelo presente.
A revelação acrescenta novos questionamentos sobre a proximidade entre o empresário e autoridades do governo federal, especialmente diante das regras aplicáveis ao recebimento de presentes por agentes públicos.
O recebimento de um presente, isoladamente, não comprova a existência de contrapartida ilícita, mas as circunstâncias descritas levantam dúvidas sobre os limites da relação entre interesses privados e o poder público.
Banco Master acabou liquidado e banqueiro foi preso
Apesar das articulações políticas relatadas, o Banco Master não conseguiu superar a crise financeira.
Em novembro de 2025, a instituição foi liquidada pelo Banco Central, em meio a investigações sobre suspeitas de irregularidades e fraudes financeiras.
Vorcaro foi preso no mesmo mês e passou a buscar acordos de colaboração com as autoridades.
As revelações publicadas pela Veja ampliam o debate sobre a influência de grandes empresários no ambiente político de Brasília e a transparência das relações entre o governo federal e instituições financeiras sob investigação.
A principal questão que permanece sem esclarecimento é se a aproximação entre Vorcaro e integrantes do governo se limitou a contatos institucionais ou se houve compromissos que ultrapassaram os limites legais da atuação pública.
A existência da reunião está confirmada, mas a alegação de que Lula teria prometido ajudar o Banco Master permanece baseada no relato atribuído a Vorcaro e é contestada pela versão apresentada pelo presidente.
Após prisão, Vorcaro teria revelado promessa de Lula para ajudar Banco Master em reunião secreta no Planalto, diz Veja






