Conversas obtidas pelo Estadão apontam contrato de 12 meses, roteiros submetidos ao banqueiro e pedidos de alterações em conteúdos apresentados nas redes sociais como opiniões independentes. Influenciadora havia negado contratação para defender a instituição.
Uma investigação publicada nesta sexta-feira (16) pelo jornal O Estado de S. Paulo revelou mensagens que colocam em xeque a independência de conteúdos publicados pela advogada e influenciadora Gabriela Prioli em defesa do Banco Master. Segundo a reportagem, Daniel Vorcaro, controlador da instituição financeira, participava diretamente da definição e revisão de roteiros destinados às redes sociais da apresentadora.
As conversas, extraídas do celular do banqueiro, indicam que Prioli mantinha um contrato de 12 meses com o banco e que seus vídeos eram submetidos à equipe de comunicação da instituição, chegando à avaliação do próprio Vorcaro antes da publicação.
O caso ganha relevância porque os conteúdos eram apresentados ao público como análises pessoais sobre o mercado financeiro, sem que a relação contratual descrita nas mensagens fosse explicitada.
Contrato de 12 meses e estratégia com influenciadores
Os diálogos envolvem Ana Matos, ex-superintendente de Comunicação e Marketing do Banco Master, que relatava diretamente a Vorcaro o andamento das ações digitais.
Em abril de 2025, a executiva informou ao banqueiro que o contrato com Prioli estava assinado por 12 meses. Na mesma conversa, mencionou uma estratégia envolvendo aproximadamente 15 influenciadores de diferentes posições políticas, contratados inicialmente por três meses.
A iniciativa buscava ampliar a defesa pública do banco em um momento de questionamentos sobre sua situação financeira e sobre a tentativa de aquisição da instituição pelo Banco de Brasília (BRB).
As mensagens também sugerem uma preocupação em preservar o caráter aparentemente espontâneo das manifestações.
Em determinado diálogo, Ana Matos relatou que desconversava quando recebia elogios pela contratação de Prioli, indicando que a relação comercial não deveria se tornar pública.
Vorcaro sugeria mudanças e autorizava publicações
A participação do banqueiro não teria se limitado à aprovação da estratégia de comunicação.
Em mensagens de abril de 2025, Vorcaro sugeriu que Prioli abordasse os ataques que ele dizia sofrer de grandes instituições financeiras. Em outro momento, pediu ajustes para evitar a politização dos conteúdos.
Em maio, ao discutir um roteiro, orientou que as críticas fossem direcionadas à imprensa, e não ao banco BTG.
O episódio mais significativo ocorreu em julho de 2025, quando Ana Matos encaminhou antecipadamente a Vorcaro um vídeo gravado pela influenciadora.
O banqueiro solicitou modificações. Dois dias depois, a executiva informou que Prioli havia incorporado o pedido e aguardava autorização para publicar.
A troca de mensagens sugere um grau de interferência editorial incompatível com a percepção de uma manifestação inteiramente independente, embora a extensão do conhecimento de Prioli sobre toda a estratégia descrita nos diálogos ainda precise ser esclarecida.
Vídeos defendiam investimentos no Master
Entre os conteúdos mencionados na investigação estavam publicações sobre os Certificados de Depósito Bancário (CDBs) oferecidos pelo Banco Master.
Em um dos vídeos, Prioli destacou a proteção proporcionada pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), argumento utilizado para transmitir segurança aos investidores.
O FGC, entretanto, oferece cobertura sujeita a limites e condições. A existência dessa garantia não elimina os riscos de uma instituição financeira nem assegura a recuperação integral de qualquer valor investido.
As publicações ocorreram em um período no qual o Banco Master enfrentava crescente escrutínio sobre seus negócios.
Influenciadora havia negado contratação para defender o banco
Em janeiro de 2026, diante de questionamentos nas redes sociais, Gabriela Prioli publicou um vídeo afirmando que nunca havia sido contratada para defender o Banco Master.
Ela também negou participação em uma rede de influenciadores destinada a atacar o Banco Central durante a análise da operação envolvendo o BRB.
A declaração contrasta com as mensagens agora divulgadas, especialmente com o relato da executiva sobre a existência de um contrato de 12 meses e a participação da influenciadora na elaboração dos conteúdos.
É importante distinguir, contudo, a existência de um contrato comercial da finalidade específica desse contrato. As mensagens descritas na reportagem constituem indícios relevantes da estratégia de comunicação, mas o documento contratual e suas cláusulas são essenciais para estabelecer formalmente as obrigações assumidas.
Segundo o Estadão, Prioli e Ana Matos foram procuradas para comentar as novas revelações, mas não haviam apresentado resposta até a publicação da reportagem.
O debate sobre publicidade disfarçada de opinião
O episódio levanta uma discussão que ultrapassa o Banco Master: os limites entre publicidade, influência digital e manifestação pessoal.
Quando uma personalidade com milhões de seguidores comenta assuntos financeiros, sua credibilidade pode influenciar decisões de investimento.
Se existe remuneração ou uma relação comercial vinculada ao conteúdo, a transparência dessa informação torna-se fundamental para que o público consiga distinguir uma opinião independente de uma ação publicitária.
No Brasil, as regras de publicidade e proteção ao consumidor exigem que a natureza comercial de conteúdos patrocinados seja identificável.
Caso fique demonstrado que manifestações remuneradas foram deliberadamente apresentadas como opiniões espontâneas, o episódio poderá suscitar questionamentos sobre transparência publicitária e eventuais responsabilidades dos envolvidos.
A questão central agora é esclarecer até que ponto os conteúdos publicados por Prioli refletiam avaliações independentes e em que medida foram influenciados pelos interesses comerciais do Banco Master.






